Cuidar de quem fomos para continuar sendo quem somos

Talvez amadurecer não seja deixar a criança que fomos para trás,

mas aprender a caminhar de mãos dadas com ela.

Houve um tempo em que três crianças habitavam uma casa cheia de livros de todos os tipos. Havia histórias em quadrinhos com personagens tão brasileiros quanto familiares, além de histórias de mundos distantes, habitados por personagens extraordinários e repletos de possibilidades aparentemente infinitas. Não havia uma biblioteca encantada de fato, mas talvez, para aquelas três crianças que adoravam ler, as estantes e os armários que guardavam aqueles livros às vezes fossem vistos dessa forma.

Na imagem que guardo na memória, havia um menino vestindo o uniforme do América Mineiro e segurando uma bola de futebol. Havia também uma menina, dois anos mais nova que ele, usando um uniforme rosa de balé, com um tutu costurado pela mãe deles, sapatilhas e os cabelos presos em um coque. E havia uma pequenina, sete anos mais nova que a bailarina, que desde muito cedo dizia que seria astronauta e queria viajar pelo espaço.

E, na minha imaginação, essas três crianças tinham uma biblioteca encantada!

Aquela biblioteca era mais do que um lugar cheio de livros e revistinhas. Era um espaço onde a imaginação encontrava abrigo, os sonhos podiam ganhar forma e cada criança começava, à sua maneira, a descobrir quem era e quem gostaria de ser.

Durante algum tempo, o mundo pareceu suficientemente acolhedor para que aqueles sonhos coubessem nele. Mas a vida também trouxe perdas, mudanças e desafios que nenhuma daquelas crianças poderia ter previsto.

E, ainda assim, alguma coisa permaneceu.

O menino que andava sempre com uma bola continuou jogando futebol sempre que podia e seguiu torcendo pelo América Mineiro. Muitos anos mais tarde, conheceu uma moça que, quando criança, se apresentava vestida de Paquita da Xuxa e, vejam só, torcia pelo Atlético Mineiro. Depois de algum tempo de namoro, decidiram se casar e tiveram um menino que, por uma dessas ironias da vida, preferiu torcer pelo Atlético Mineiro, mas amava futebol tanto quanto o pai.

A menina que vestia sapatilhas continuou dançando mesmo depois de deixar as aulas de balé. Na sala de casa, colocava para tocar os discos de música clássica do pai, inventando coreografias com os passos que aprendera anos antes e outros que criava. Participava dos festivais de dança no colégio e, décadas depois, finalmente encontrou uma escola de danças de salão instalada em um galpão que, para ela, mesmo já adulta, tinha algo de mágico. Ela seguiu dançando com o que tinha, onde podia, do jeito que conseguia. Aquela menina nunca deixou de amar a dança.

E a pequenina que queria ser astronauta, mesmo sem ter chegado à NASA, resolveu, com pouco mais de 20 anos, bater asas, atravessar o oceano Atlântico, aprender outro idioma e morar por um ano em um país que tinha uma ligação importante com um dos lugares onde o pai deles havia trabalhado. E seguiu viajando pelo mundo, conhecendo diferentes países, culturas e idiomas, vivendo aventuras que talvez nunca tivesse sequer imaginado na infância.

Talvez, quando crianças, nenhum deles soubesse explicar o que o futebol, a dança e as viagens significavam para cada um. Mas continuaram encontrando nessas experiências formas de expressão, prazer e reconhecimento de si mesmos.

A infância não termina quando crescemos

A infância passa, o corpo muda, as responsabilidades se acumulam e a vida nos convida — às vezes de maneira delicada, outras vezes abruptamente — a guardar alguns sonhos na gaveta, abraçar a realidade que temos, abandonar algumas ilusões, rever expectativas e aprender a lidar com limites.

No caminho, podemos deixar para trás muito mais do que brinquedos e brincadeiras. Podemos nos afastar da espontaneidade, da curiosidade, da criatividade e de sonhos e desejos que um dia foram importantes para nós.

Às vezes, isso acontece porque precisamos nos adaptar às circunstâncias. Em outras ocasiões, porque aprendemos que determinados interesses não são valorizados ou apoiados, que certas emoções e sentimentos incomodam ou que é mais seguro corresponder às expectativas dos outros do que expressar aquilo que realmente sentimos e buscar aquilo que realmente queremos.

Pouco a pouco, podemos nos tornar adultos competentes, responsáveis e aparentemente bem adaptados, mas cada vez mais distantes de partes importantes de nós mesmos.

É nesse sentido que a ideia de cuidar da nossa criança interior pode ser tão significativa.

Não se trata de permanecer infantil, idealizar o passado ou acreditar que a infância foi necessariamente um tempo mais feliz. Tampouco significa atribuir todos os nossos desafios atuais às decepções, frustrações e dores que vivemos quando crianças.

Trata-se de reconhecer que a nossa história continua participando de quem somos. As experiências da infância, os vínculos que construímos, as oportunidades que tivemos e aquelas que nos faltaram, os sonhos que alimentamos e as renúncias que fizemos contribuíram para formar nossa maneira de sentir, pensar, agir e nos relacionar com as outras pessoas e com o mundo.

A criança que fomos não determina inteiramente o adulto que nos tornamos. Mas também não precisa ser apagada para que possamos amadurecer.

Cuidar da criança interior é preservar a possibilidade

de sermos nós mesmos

Talvez uma das tarefas mais importantes da vida adulta seja aprender a reconhecer quais partes de nós continuam vivas e merecem espaço, quais precisam de acolhimento, proteção e cuidado e quais já não correspondem à pessoa que somos hoje.

Isso pode significar voltar a desenhar, dançar, cantar, ler por prazer, explorar um assunto por pura curiosidade ou retomar um sonho antigo. Pode significar também descobrir interesses inteiramente novos, permitir-se brincar, fazer perguntas, experimentar e começar alguma coisa sem a obrigação de ser excelente nela.

Mas esse cuidado não se limita aos prazeres e às atividades que nos fazem bem.

Ele também envolve reconhecer emoções e sentimentos que aprendemos a esconder, necessidades que nos acostumamos a considerar excessivas e características pessoais que talvez tenhamos tentado modificar para sermos aceitos.

Preservar a criança interior não é impedir que ela cresça.

É permitir que ela cresça conosco, sem precisar desaparecer para que sejamos aceitos.

Cuidar da nossa criança interior pode ser aprender a respeitar a própria sensibilidade, recuperar a confiança na própria percepção, reconhecer necessidades, possibilidades e limites e compreender que não precisamos corresponder permanentemente às expectativas alheias para merecer amor, carinho e respeito.

É permitir que a curiosidade sobreviva à necessidade de saber todas as respostas, que a criatividade encontre espaço mesmo quando não produz resultados práticos e que nossos desejos possam ser escutados, ainda que nem todos possam ou devam ser realizados.

Isso não significa atender a todas as vontades, ignorar responsabilidades ou permanecer presos ao passado. A maturidade também envolve discernimento, tolerância à frustração, responsabilidade pelas próprias escolhas e pelas consequências delas, além da capacidade de rever decisões e escolher outros caminhos.

Amadurecer sem perder a própria história

Uma vida inteira pode ser insuficiente para realizar todos os sonhos que tivemos. Alguns deixam de fazer sentido; outros precisam ser transformados para caber nas condições concretas de cada fase da vida. Há desejos que permanecem adormecidos por muito tempo e outros que só conseguimos reconhecer quando já somos adultos.

Nem sempre podemos recuperar as oportunidades que perdemos. Tampouco podemos mudar aquilo que aconteceu.

Mas podemos olhar para a nossa história com mais compreensão e menos julgamento, reconhecendo a complexidade das pessoas e das relações, sem precisar reduzir ninguém a um único papel. Podemos reconhecer o que nos faltou sem reduzir nossa vida a essas faltas, valorizar o que recebemos sem negar nossas dores e encontrar maneiras possíveis de dar continuidade àquilo que ainda faz sentido para nós no presente.

Às vezes, esse reencontro acontece por meio de uma grande mudança. Outras vezes, começa com um gesto pequeno: reservar um tempo para algo de que gostamos, aprender uma habilidade nova, voltar a ouvir uma música querida ou simplesmente nos permitir experimentar uma alegria que não precisa ser justificada pela utilidade ou pela produtividade.

O importante e saudável não é reproduzir a infância no presente, mas encontrar maneiras de integrar nossa história à pessoa que somos hoje.

Quando reconhecemos nossas raízes, nossos desejos, nossas contradições e nossas transformações, ampliamos a possibilidade de viver com mais autenticidade. Não porque finalmente descobrimos uma versão definitiva de nós mesmos, mas porque deixamos de precisar negar tantas partes da nossa história e de nós mesmos para seguir em frente.

Talvez seja isso que torna o amadurecimento um processo tão desafiador e, ao mesmo tempo, tão libertador: podemos mudar sem precisar renegar quem fomos.

Que lugar a sua criança ainda ocupa na sua vida?

Neste Dia das Crianças, talvez valha a pena fazer uma pausa e recordar.

Do que você gostava quando era criança? O que despertava sua curiosidade? Que atividades faziam você perder a noção do tempo? Quais sonhos eram seus, antes que o mundo começasse a dizer o que seria possível, adequado ou importante?

E, olhando para a pessoa que você é hoje, o que ainda permanece? O que gostaria de recuperar? O que precisa deixar para trás para caminhar mais leve daqui para frente? Que novas possibilidades gostaria de descobrir?

Não é necessário realizar todos os sonhos da infância, nem transformar cada lembrança em uma tarefa de desenvolvimento pessoal. Algumas memórias podem simplesmente continuar sendo memórias queridas. Outras podem nos ajudar a compreender melhor quem nos tornamos.

Podemos crescer sem deixar de sonhar. Podemos mudar sem deixar de ser nós mesmos.

E podemos construir uma vida adulta que não apague a criança que fomos, mas lhe ofereça novos espaços para existir.

Talvez o convite seja apenas este: olhar para a criança que fomos com curiosidade, respeito e ternura, reconhecendo tanto as alegrias quanto as dificuldades de sua história.

E, a partir desse encontro, oferecer à pessoa adulta que somos mais liberdade e confiança para escolher, criar, mudar e continuar nos transformando ao longo da vida.

Talvez possamos, aos poucos, reconhecer — e quem sabe finalmente sentir — que merecemos realizar e receber coisas boas simplesmente por existirmos. Não porque precisamos ser perfeitos, produtivos ou corresponder às expectativas de alguém, mas porque nossa existência tem valor. E porque aquilo que conseguimos oferecer a cada momento também depende das condições internas e externas em que estamos vivendo. O nosso melhor não é uma medida fixa: pode mudar conforme mudamos e conforme mudam as circunstâncias ao nosso redor.

Porque amadurecer não precisa significar abandonar a curiosidade, a imaginação, a sensibilidade ou a capacidade de se encantar.

Sendo ou não dia 12 de Outubro quando você estiver lendo esse texto, te desejo um Feliz Dia das Crianças! Tenha você contato ou não com crianças que estão de fato crescendo agora, sendo você responsável por alguma delas ou não, desejo um dia e uma vida feliz, na medida do possível, especialmente para aquelas crianças que continuam vivendo, de tantas maneiras, dentro de cada um(a) de nós!

Com cuidado e carinho,

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Entre montanhas, horizontes, mares e praias