Entre montanhas, horizontes, mares e praias

Querida(o) visitante,

Recentemente, um paciente que nasceu no sul do Brasil me perguntou por que nós, mineiros, gostamos tanto de mar e praia. Sorri, achando graça não somente da curiosidade dele mas também da fama que envolve a ligação íntima dos mineiros com praias e mares já que nosso estado não possui tais paisagens.

A pergunta ficou ecoando em mim durante dias. Eu não posso responder por todos os mineiros obviamente, mas posso falar sobre a minha própria perspectiva, fruto das minhas próprias experiências.

Talvez gostamos tanto de mar e praia porque, para quem nasce cercado por montanhas, o mar nunca seja apenas uma paisagem bonita. Ele também vira memória afetiva, saudade que aperta, desejo latente, horizonte expandido, liberdade conquistada.

Mineiro costuma crescer fazendo viagens de carro para o litoral com a família, e mais tarde com os amigos. Horas e horas de estrada até chegar ao Rio de Janeiro, ao Espírito Santo ou à Bahia. Cabo Frio, Vila Velha, Arraial d’Ajuda e tantos outros lugares acabam se tornando parte da nossa história afetiva.

Existe quase um ritual nisso.

A ansiedade da preparação para a viagem. As malas cheias de roupas e objetos que normalmente não usamos no nosso dia-a-dia. As músicas animadas no carro. A primeira visão do mar surgindo no horizonte depois de tanto tempo de estrada. O cheiro de maresia, a brisa do oceano no rosto e nos cabelos, o toque da areia nos pés e da água salgada no corpo todo cada vez mais próximos de serem finalmente ou novamente sentidos. A sensação de relaxamento e descanso. A ideia de liberdade total, nem que seja do relógio e do calendário por alguns dias.

Talvez por isso o mar ocupe um espaço tão simbólico para muitos de nós.

Mas, curiosamente, acho que a mineiridade também aprende a encontrar mar onde ele aparentemente não existe.

Eu nasci e cresci em Belo Horizonte. E algumas das minhas memórias mais afetivas não envolvem praias, mas montanhas e horizontes.

Pode-se dizer que BH também tem seu próprio mar. Um verdadeiro mar de prédios, cercado por serras e montanhas, que pode ser visto do alto de vários pontos da cidade. Inclusive, por sorte, do apartamento onde moro.

Mas minhas memórias afetivas aqui não se resumem à paisagens, horizontes e entardeceres. BH me ofereceu e oferece muito mais…

Sim, caminhadas no Parque das Mangabeiras e pores do sol vistos do mirante estão entre os passeios mais conhecidos por quem mora aqui ou vêm nos visitar.

Assim como a Praça da Liberdade, tão bonita e tão simbólica para nós mineiros. Não por acaso, carregamos na nossa bandeira a frase “Liberdade ainda que tardia”.

A Igreja São José (hoje restaurada por dentro e por fora em suas cores originais), onde meus pais nos levavam para assistir à missa das crianças aos domingos.

O Parque Municipal com suas árvores centenárias e belo paisagismo, um verdadeiro oásis no coração da cidade. Onde o tempo parece passar um pouco mais devagar, convidando as pessoas que ali entram a um caminhar mais tranquilo, seja entre um compromisso e outro no meio da semana, seja num de seus domingos de música clássica ao ar livre.

O Palácio das Artes, tão presente na vida cultural de Belo Horizonte e nas minhas próprias memórias. Quantas apresentações de dança, peças de teatro, shows de música e até espetáculos de ópera já passaram pelo seu palco!

E a Pampulha… nossa lagoa com jeito de mar, rodeada por um conjunto arquitetônico cheio de história, incluindo a icônica Igrejinha curva com revestimento de pastilhas azuis e brancas.

Durante a faculdade de psicologia na UFMG, muitas vezes eu ia para lá em intervalos maiores entre as aulas. Era um lugar de silêncio, contemplação e conversa interna. Um espaço onde eu podia simplesmente respirar, observar a água e me reconectar comigo mesma.

Até hoje moro no bairro onde nasci: o Caiçara. Um nome curioso e que conversa muito com este texto. Originalmente, a palavra designava cercas construídas por povos indígenas com galhos e troncos. Mais tarde, passou também a identificar populações tradicionais do litoral brasileiro. Pois é… até o meu bairro parece guardar alguma ligação simbólica com praias e mares, mesmo estando a quilômetros deles!

Hoje em dia, do meu consultório, de onde realizo atendimentos on-line para pessoas de várias partes do Brasil e do mundo, continuo vendo montanhas, horizontes e esse imenso mar de prédios que muda de cor a cada entardecer.

E talvez seja justamente isso que tantas imagens da Terapia com Alma tentam transmitir.

Não apenas o mar literal, mas aquilo que ele simboliza.

Amplitude.

Profundidade.

Movimento.

Travessia.

Silêncio.

Respiro.

Horizonte.

A psicoterapia, para mim, nunca foi apenas um processo racional ou técnico. Ela também envolve presença, escuta, contemplação e contato com aquilo que sentimos, mas nem sempre conseguimos nomear imediatamente.

Existem momentos em que a vida parece uma tempestade em alto mar.

Outros em que nos sentimos à deriva, sem saber para onde ir nem como chegar em algum lugar mais seguro.

E existem aqueles raros instantes em que conseguimos apenas parar, respirar e observar o horizonte novamente, sentindo os pés firmes no chão e uma brisa suave nos acariciando.

Talvez seja por isso que eu tenha escolhido para representar a identidade visual da Terapia com Alma imagens de mares e praias, montanhas e horizontes coloridos. Paisagens conhecidas de Belo Horizonte e dos “belorizontinos” (sim, a gente tem mania de juntar palavras mesmo! rs).

Porque acredito que os lugares e ambientes onde crescemos continuam vivendo dentro de nós.

As paisagens externas acabam, aos poucos, se transformando também em paisagens internas.

As montanhas talvez realmente tornem nós, mineiros, mais reservados, discretos e observadores. Mas também muito acolhedores.

O mar talvez nos lembre da imensidão da vida, da liberdade, do movimento e da possibilidade de expansão.

E a terapia, de certa forma, talvez seja justamente esse espaço entre montanhas e horizontes: um lugar de acolhimento, profundidade, reflexão e transformação.

Com cuidado e carinho,

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